Pensamentos automáticos e recorrentes, sim. O nome técnico é "obsessão". Há alguns transtornos mentais envolvendo a ocorrência de pensamentos sem controle e com prejuizo, dentre eles o "transtorno obsessivo compulsivo" e o "transtorno de stress pós-traumático", por exemplo.
Já "compulsão" é um termo mais usado para atos que fazemos visando atender a uma obsessão (pensamento), geralmente de modo ritualístico.
No uso popular, e até mesmo em alguns ramos da psiquiatria, utiliza-se equivocamente o termo "compulsão" para alguns atos repetitivos. É um erro de tradução. O correto seria chamá-los de atos impulsivos. Atos compulsivos seriam apenas aqueles que tentassem atender a ordens dadas pelos pensamentos - que no caso seriam "obsessivos", e não "compulsivos" ou "impulsivos".
Comentários, reflexões e respostas em psicanálise, filosofia, espiritualidade, sociologia e política, pelo Prof. Lázaro Freire. Pergunte-me qualquer coisa. Se deseja alguma resposta na forma de post, envie sua pergunta anônima, sintética e respeitosamente nos comentários, começando sempre com " PERGUNTA ANÔNIMA: " (sem as aspas).
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Existe isso de pensamento compulsivo? Como identificar se possuo? E afinal como tratar?
Você conhece Roberto Freire e sua teoria? E sua abordagem Somaterapia? Se sim, o que pensa a respeito?
Li alguns livros dele na década de 80 e 90. Nos anos 90, eu trabalhava mais com Gestalt e PNL. Da década de 2000 para cá, passei a trabalhar mais com o inconsciente. Faz tempo que li, e não tinha a base que tenho hoje. Não me sinto em condições de emitir um parecer. Gostava dos livros, na época, não muito mais (ou menos) do que isso.
A teoria de que Dragões, Magos Negros, Feiticeiros controlam os bastidores da política e dos meios de comunicação (principalmente televisão e internet) são alguns dos temas abordados na obra de Robson Pinheiro - A marca da besta. O que pensa sobre isso?
hahahahahahaha hahahahahaha hahahahahaha hahahahahaha
Dragões?
hahahahahaha hahahahahahaha hahahahaha hahahahaha hahahahahaha
A mando de quem, de Lúcifer? :-)
domingo, 12 de setembro de 2010
Você conhece a si mesmo?
Não. A diferença é que sei que não sei. E tento conhecer. Já é mais que uma maioria que pensa que é aquele que chama de "eu", e que pensa que sabe o que as coisas do céu e da terra são. Prefiro a metamorfose ambulante àquela velha opinião formada sobre tudo, na maioria das vezes ancoradas por crenças e religiões.
Faço análise todas as semanas e filosofia todos os dias. A cada passo dado, aumenta a compreensão do tanto que não sei. Filosofia é o único curso onde todos entram "filósofos" e saem alunos. Projeto-me para o vazio, e ele e o infinito se tornam um só. Entretanto, nesse movimento para o nada posso tudo, e recupero a cada dia um pouco do que sou a partir do que estou, para que possa estar mais aquilo que sou.
Como a psicanálise e a filosofia vêem o ciúme e o apego excessivo? Como você analisa isso na vida contemporânea e como lidar com estes sentimentos, tanto quem é alvo quanto para quem é portador? Obrigado. Gosto muitíssimo de suas respostas.
Tanto a filosofia quanto a psicanálise vão, em geral, recomendar a ponderação. Vários autores filosóficos apontariam o "apego" e o "excessivo" como os principais problemas da atitude.
Em se tratando de psique, compreendo o ciumes como uma emoção. Emoções são necessárias e POSITIVAS, servem para a preservação das espécies. Sou simpático à psicologia evolucionista, compreendendo como os processos darwninianos afetam as neurociências, portanto eu diria que um pouco de cada uma dessas emoções são constitutivas e até mesmo necessárias. O problema está no excesso, que tende a ser patológico.
Tristeza é bom e importante para elaborarmos lutos e reavaliarmos processos; o excesso dela com prejuizo funcional e/ou motivação inconsciente (desconhecida e inexplicável) é que caracteriza depressão ou melancolia. Ansiedade é bom para antecipar emoções, mas em demaisa gera transtornos e somatizações. Medo é importantíssimo para avaliarmos nossos limites, mas se tiver ação inconsciente torna-se fobia.
Sem um pouco de ciumes e valorização afetiva do que temos, colocamos em risco investimentos nada desprezíveis, sejam materiais ou emocionais. Mas em excesso, ou fantasioso, gerando calúnias, invenções de situações imaginárias, brigas, prejuizos afetivos e principalmente desrespeitos, temos uma situação que lembra mais a psicose, uma vez que envolve comumente DELÍRIOS e alucinações. É doença, embora a sociedade seja ligeiramente complacente com crimes (abrir correspondências e computadores, por exemplo) e agressões (físicas, morais, calúnias, difamações) que ocorram dentro de um relacionamento. Na minha opinião, não deveria ser. Crime é crime, insegurança é insegurança, e não há amor baseado em des-confiança e agressão.
Em relação a quem tem o comportamento agressivo, a psicanálise em geral investiga o passado de relações afetivas, e o presente da auto-estima. Cada caso é um caso, obviamente, mas muitas vezes o ciumento não tem confiança é em si mesmo, não no outro. Se alguém com quem me relaciono - afetiva, profissional, clinica ou pessoalmente - comigo demonstra sucessivamente não ter confiança em mim, costumo sempre acabar a relação, e sugerir (de coração) que procure uma outra pessoa mais honesta para se relacionar. Não há relação sem confiança, a meu ver.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Quais os 5 livros de Filosofia mais te marcaram?!
Creio que eu e você chamemos coisas diferentes pelo mesmo nome de "Filosofia". Eu não leio os livros de filosofia assim, como romances ou opiniões. Leio AUTORES dentro de seu contexto, com método, estudando antes o contexto histórico e como o pensamento do autor se encaixa nos problemas filosóficos de sua época; O senso comum às vezes pensa que estudar "filosofia" é uma espécie de compêndio pseudo-literário de frases de sabedoria, uma espécie de versão mais cabeça do curso de Letras especializada em obras de auto-ajuda ou "filosofias" (sic) de vida. Não é.
Eu gosto de autores que nem sempre escrevem bons livros, no sentido literário. O contrário também é verdadeiro, há penas mais comunicativas que não necessariamente são originais. Além disso, ao estudar a obra de um autor como professor, muitas vezes leio antes a história da época, depois resumos de comentadores sérios, depois diversos fragmentos diferentes de várias obras, e depois, quando há interesse no autor, uma ou outra obra inteira. Cada autor pode ter de 5 a 20 livros sérios, alguns bastante volumosos, e outros bastante densos (é preciso parar por tempos em cada capítulo). E eu poderia citar de cabeça uns 100 autores MAIS importantes na história da filosofia. Faça as contas. E não são todos que estudei.
Não consigo pensar em cinco obras mais importantes da filosofia. Até porque, seria quase impossível citar apenas CINCO filósofos dos mais importantes para se compreender minimamente a história da filosofia. Tentarei relacionar os dez filósofos mais importantes da história da filosofia: Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud, Sartre... Já foram onze, e não deu nem pra citar os pré-socráticos, Epicuro, Plotino, Abelardo, Avicena, Bacon, Lock, Hobbes, Hume, Berckley, Pascal, Rousseau, Espinoza, Schopenhouer, Husserl, Russel, Foucault, Willian James, Jung, Heiddegger, Deleuze, Ken Wilber, Hannah Arendt, e tantos e tantos outros...
Você quer os cinco melhores o quê? Livros de um autor? Autores de uma época? Fica difícil, a própria filosofia tem muito mais divisões do que cinco (metafísica & ontologia, teoria do conhecimento & epistemologia, antropologia, filosofia da mente, filosofia da ciência, cosmologia & filosofia da natureza, lógica, filosofia da religião & teodicéia, filosofia da linguagem, filosofia política, ética & filosofia moral, estética & filosofia da arte, etc, etc...). Cinco livros de uma área já seria difícil, a bibliografia básica de qualquer dessas disciplinas tem bem mais que cinco.
Se, contudo, não sabe bem o que é filosofia, nesse caso há vários livros de introdução. Recomendo (a todos, de todos os níveis) o GUIA ILUSTRADO ZAHAR DE FILOSOFIA para ter ao menos uma idéia do grande mapa e escopo do pensamento filosófico. Satisfação garantida.
Depois, dependendo do grau de interesse, partir para um comentador de história da filosofia (gosto da nova edição do Realle, em 7 volumes), ou mesmo um livro de segundo grau (a disciplina agora é obrigatória nas escolas). Para uma visão mais rasa, sugiro os livros de estímulo à filosofia, como o APRENDER A VIVER (pra não citar o manjado e rasteiro O MUNDO DE SOFIA). Para uma visão um pouco mais profunda, é preciso no mínimo o contato com alguns livros da coleção OS PENSADORES dos autores que mais lhe interessarem.
Qual a sua definição de subconsciente? Existe como dominá-lo completamente?
Não existe SUBCONSCIENTE em psicologia analítica e outras linhas acadêmicas. Esse é um termo muito vago, impreciso e popular.
Já o vi usado como se fosse sinônimo inexato de "inconsciente", ou de "estados alterados", ou de "estado alpha", de uma certa mediuinidade, de instâncias coletivas da psiquê - ou até de um certo poder inteligente que mandaria na mente humana e nas demais. Nesse aspecto, é mais um termo de uma meta ou pseudo teologia moderna, uma construção de crenças de autores de certos livros ("O Poder do SUBconsciente", sic) do que algo delimitado em cima do qual se possa conversar, filosófica ou psicologicamente.
Em qualquer das hipóteses, detesto as palavras DOMINAR e COMPLETAMENTE quando falamos em psiquismo, especialmente de natureza INCONSCIENTE. O simples fato de pensar em DOMINAR algo desta natureza, seja qual for ela, já demonstra certas crenças (a meu ver equivocadas) a respeito do psiquismo, dos instintos, dos estados alterados e das emoções. Não se "DOMINA" essas coisas, pensar assim implicaria que fossem algo externo, menor e malévolo, passível de controle, de certo modo quase incômodo, uma espécie de doença ou área mal comportada... Nada mais distante da verdade.
Pretender "dominar completamente" já é um equívoco a priori, geralmente trazendo consequências neuróticas graves a quem tenta a façanha de colocar seu dedinho para tampar os vulcões. Seja o que for que esteja além do ego conhecido, parece que faz parte de nós, ou talvez o contrário. Penso que CONHECER, INTEGRAR - e, talvez, RELIGAR - sejam verbos bem mais honestos e saudáveis para lidar com algo muito maior que aquilo que achamos que conhecemos como nós mesmos e batizamos pretensiosamente de um EU. Um ego que pensa controlar totalmente tudo que não conhece é bem mais caricato que o porteiro que pensa ser o dono do prédio.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Vc utiliza o tarot?
Para adivinhação, você diz? Não.
Mas uso para estudos arquetípicos, mitos, sonhos e símbolos. Junguianamente. São excelentes representações de situações arquetípicas do inconsciente coletivo. Vários pacientes relatam sonhos arquetípicos, que batem com situações representadas nas lâminas, mesmo que não as conheçam. Importante dar conhecimento a ele, e ver com que aspectos dos mitos associados ele se identifica mais. Acaba sendo uma forma de amplificar a associação livre dele, já orientada por uma seleção prévia de seu próprio inconsciente.
Tenho também, extra clínica, um grupo de estudos e práticas associada a paganismo, jung, tarot e rituais. Eu e a Liege Campos (bruxa e junguiana) o coordenamos. Ali trabalhamos o tarot de um outro modo, mais ritualístico e vivencial, um por encontro, inclusive com dinâmicas, quase como estágios iniciáticos de uma jornada de auto-desenvolvimento.
De todo modo, aquele tipo de uso de tirar a carta para saber se a pipoca do microondas vai estourar em 4 ou 5 minutos, se um romance de verão vai dar certo ou não, se meu chefe vai gostar de mim ou não, não uso. É possível, talvez, mas acho que isso é subutilizar e vulgarizar demais uma ferramenta muito maior. E, convenhamos, esse uso fica totalmente desnecessário para quem faz terapia séria semanal. Afinal, o tarot no máximo faria a pessoa refletir nas origens e possibilidades de seus (próprios) "problemas". Pode ajudar a refletir sobre o inconsciente, mas não deveria ser maior do que nossa própria reflexão e atitudes.
Conheço algumas tarólogas sensacionais, mas são antes de mais nada excelentes pessoas, com uma grande capacidade de empatia e de leitura de psiques. São acolhedoras, aconselhadoras, inteligente emocionalmente. No fundo, portanto, seu tarot é só uma ferramenta intermediária. É a boa taróloga quem percebe inconscientemente os motivos por detrás das perguntas, e dá às cartas uma melhor interpretação. Ou seja, o tarot serve como uma terapia rápida e popular para quem não faz. Mas não substitui, a meu ver, um trabalho junguiano ou psicanalítico mais profundo.
Filosofia Clínica é melhor que psicanálise? Uma pessoa da filosofia me disse que psicanálise serve apenas para algumas pessoas, e que é extremamente muito mais demorada. Qual sua opnião?
O que levanta suspeita na competência de quem lhe disse isso é a afirmação de uma ser "demorada" e a outra "rápida". Isso não combina com práticas que tendem a ser um processo contínuo, filosófico existencial, e não um pit stop para consertar a psique doente de alguém. Psicanálise não tem como ser lenta ou rápida, porque não é panacéia, nem "terapia". Não "conserta". Não é pragmática, não tem um resultado a obter em 4 semanas.
Estive no penúltimo congresso de Filosofia Clínica em Curitiba, com o Lúcio Pakter e todos mais. Acho muito interessante. Mas notei lá que há muito desconhecimento - e até um certo preconceito - em relação à psicanálise por parte de uma maioria de praticantes menos informados que os fundadores. Vi que debatem problemas de técnicas, transferência, contratos clínicos, psicopatologias como se fossem quase inéditos, infelizmente ignorando contribuições que 100 anos de práticas clínicas de diversas linhas já trouxeram.
Outra coisa que notei no congresso é que a maioria dos praticantes de filosofia clínica NÃO SÃO FILÓSOFOS. Eu estranhava algumas posições mais radicais, coorporativistas ou falaciosas que seriam pouco esperadas de alguém que tivesse sobrevivido a uma faculdade de filosofia, lidando com tantos pensamentos diferentes. Quero crer que quem disse isso a você seja um desses, menos esclarecidos, e não um dos excelentes fundadores e divulgadores das possibilidades da Filosofia Clínica.
Por fim, é bom esclarecer que FILOSOFIA CLÍNICA (a do Pakter e da Ayub) é uma excelente técnica e codificação de base clínica que usa a filosofia como base, mas não é nem deve ser a única forma de acrescentar FILOSOFIA e preocupação existencial na clínica de psicoterapia. Pakter usa um segmento muito específico da FILOSOFIA, faz suas escolhas dogmáticas, a partir de Aristóteles, fenomenologia e outros recortes. Eu gosto, mas certamente faria recortes diferentes. Há muito mais na filosofia que não foi selecionado por ele, por não ser aplicável à SUA técnica em particular.