Por mais que haja devaneios tolos a me torturar, não tenho suficientes conhecimentos poético-canabióides-existenciais para analisar os desdobramentos filosóficos de versos como "oh meu velho e indivisível avohai" ou "Veneno lamparina é prata que vai pingar na prata do camelô, cometa que cai no mar, debaixo de sete quedas". A tentativa de entender este poeta paraíbano gera em meu cérebro coágulos de sol, a não ser que eu fume da mesma neblina turva e brilhante. Mas não tanto a ponto de me dar medo de viajar até o meio da cabeça do cometa girando na carrapeta no jogo de improvisar", porque bad trip e peia não são minha onda, definitivamente, hehehe.
Falando mais sério um pouco, ainda que nosso poeta não seja lá exatamente um literato junguiano, o inconsciente pode falar sim através de seus versos, espontaneamente, de modo a que ele tenha a palavra certa pra doutor junguiano não reclamar. A sombra psíquica é do inconsciente coletivo e pessoal humano, e não do Jung. Obras como O Médico e o Monstro já a contemplavam bem antes do estabelecimento do conceito teórico. O diabo cristão, criação medieval, também já personificava a sombra coletiva de uma europa judaico-cristã do medievo - e posteriormente os resíduos do mito do iluminismo - bem antes de alguém inventar a palavra "psicologia". Para não falar do culto a Dionísio e os Mistérios de Elêusis da antiga grécia.
Se formos nos atentar à minha interpretação do conceito junguiano, me parece que a sombra - em si e por si - não ilumina, como sugere o jogo de palavras viajandão de "Galope Rasante" (http://letras.terra.com.br/ze-ramalho/122525/). A sombra é formada por conteúdos que foram rejeitados pelo eu consciente, se aproximando bastante do conceito mais patológico de "inconsciente" de Freud - com a diferença de que, ao contrário do inconsciente-freudiano, a sombra-junguiana não é necessariamente apenas "ruim", "enganadora", mas também abriga potenciais criativos, potenciais espirituais, intuição, enfim, tudo de bom ou de ruim que o ego consciente rejeitou, direta ou indiretamente. Poderíamos dizer que a visão de Freud era mais iluminista, logo o que não estava na consciência adquiria um caráter negativo, um inimigo enganador; e já em Jung, como em Nietzsche (o espírito da tragédia, dionisíaco X apolíneo), a consciência não é mais vista como a oitava maravilha da humanidade. Em palavras mais simples, somos apenas PARTES do que poderíamos ser, e boa parte deste trabalho de recuperação é um trabalho de sombra. Ou seja, como Zé da Paraíba talvez perceba intuitivamente, há coisas muito boas vindo de sua sombra psíquica. Isto é mais verdade ainda em quem lida com processos criativos pouco convencionais, como parece ser o caso dele.
Embora não seja a sombra que ilumine, não dá para falar em iluminação de fato sem considerá-la. Não como FONTE de luz, como objeto de culto, mas como objeto que não pode deixar de ser iluminado no processo de autoconhecimento e individuação. NInguém se torna iluminado voando feito louco com asas de cera em direção ao sol, mas sim levando luz às partes mais obscuras da sua psique. Neste sentido, cabe alertar para o risco de "culto à sombra" que muitas vezes ocultistas e drogadictos equivocados incorrem, tão perigoso quanto o culto exagerado ao luminoso com o qual pretensos "espiritualizados" tendem a fugir do mundo ou de si mesmos. - Jung diz em "Aion" que a sombra é um problema de ordem moral, e que seu culto pode abrir caminho para perigosos processos de possessão psíquica.
Portanto, alto lá com esta história romântica de a sombra iluminar, tornar-se uma espécie de substituto heavy-metal do self. Por outro lado, o, err, digamos, "poeta" (sic) acerta - ou pelo menos bate na trave - ao observar que há ótimos conteúdos na sombra, que aquilo que a sociedade condena no sombrio pode ser fonte - ou pelo menos copartícipe - do processo de tentarmos nos tornar aquilo que podemos ser.
Jung tem um sonho em que atravessa uma caverna escura carregando uma pequena vela na mão, e fugindo de SOMBRAS assustadoras que são projetadas atrás de si. Ele não vê muito à frente, mas a pequena e frágil luz - seu ego - lhe permite percorrer os próximos passos do caminho. Dados esses passos, então a mesma luz poderá lhe iluminar os passos seguintes, através da escuridão da jornada na caverna enfrentando suas PRÓPRIAS sombras.
O bonito na analogia deste sonho é que demonstra que o conteúdo sombrio é PROJETADO pela própria luz da consciência. Não existiria sem ela, é verdade. Diz Freud em Tótem e Tabu que a civilização, ao criar o superego (da psicanálise), cria também o ego (decidindo entre desejos e repressões) - e, é claro, o conflito e a neurose. Mas sem regras e superego não há civilização possível... Logo, não há civilização sem ego, não há como não sermos neuróticos, de algum modo. Que bom que somos! Mas há um caminho possível para conviver com isso, Entendo que o sonho de Jung traga uma resposta para esse dilema. Não haveria sombra (inconsciente freudiano) sem a luzinha da consciência (ego, numa comparação freudiana), é ele que a projeta, a partir de NOSSA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO. Entretanto, apagar a luz não me parece uma boa opção. Logo, se podemos dizer que a sombra se opôe ao ego separando, na neurose, conteúdos que se integrados levariam ao self, podemos dizer também que, se pudéssemos olhar a partir do ponto de vista do divino, de algum modo, O EGO É A SOMBRA DO SELF (!!!!). Mas sem o ego não é possível atravessar a caverna.
Jung observa que sua pequena e frágil luz, que pode se apagar a qualquer momento, é sua única auxiliar nesta travessia, e que precisa protegê-la (é bom não nos esquecermos que Jung psicotizou em certa fase da vida, logo, é também o sonho de um psicótico inteligente e intuitivo-introvertido, destacando a necessidade de proteção de seu ego). Curioso como uma pequena luz que só permite visualizar poucos passos adiante (a exemplo do que ocorre com nossa vida) é, ao mesmo tempo, tudo o que necessitamos para percorremos quilômetros, sem precisarmos temer a sombra - especialmente ao compreendermos que ela é formada por nós mesmos, e que diminui à medida em que consigamos, de algum modo, levar luz aos cantos mais escuros, onde não raro encontramos pepitas de ouro, pedras preciosas e fontes subterrâneas cristalinas.
Dito isso, posso voltar ao Avôhai. Não, não é a sombra que ilumina, mas é preciso conhecê-la (e não negá-la) para que nos tornemos mais conscientes de nós mesmos. E quando fazemos isso, ao invés de encontrarmos (apenas) neuroses, vampiros e pesadelos, encontrarmos os nossos mais valiosos tesouros e pontenciais, soterrados que foram também no abismo que somos nós.
"Quem não enfrenta o inferno de suas paixões, tampouco as supera. Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos" (Carl Gustav Jung)
Comentários, reflexões e respostas em psicanálise, filosofia, espiritualidade, sociologia e política, pelo Prof. Lázaro Freire. Pergunte-me qualquer coisa. Se deseja alguma resposta na forma de post, envie sua pergunta anônima, sintética e respeitosamente nos comentários, começando sempre com " PERGUNTA ANÔNIMA: " (sem as aspas).
terça-feira, 7 de junho de 2011
A frase de Zé Ramalho "A sombra que me move, também me ilumina" seria um toque espiritual dele, na sua opinião? Pode a sombra iluminar? Obrigado.
Estou estudando psicanálise, mas sou perfeccionista. Gostaria de ter capacidade de fazer psicanálise transpessoal, mas sempre penso, "será que vou conseguir ser como o Laz". Qual a rota para ser como você?
Fazer suas horas de análise, indispensáveis para a formação em psicanálise. Deve ajudar TANTO na questão do perfeccionismo quanto na fantasia de ser como outrem. ;-)
Ser como eu não é o mesmo que "conseguir ser como eu", pois se seguir mesmo meu exemplo olharia meu caminho, e não meu destino - nas palavras de Jung, a meta é a próprio "opus" em busca da meta. Eu sugeriria procurar seu próprio caminho, orientado farol do self. Se a minha experiência ou a de alguém ajudar nisso, ótimo. Mas nenhum curso, autor, professor ou livro substituiu ou fez a história de minha vida - nem da sua. Seguir o MEU mito lhe levaria para qualquer lugar MENOS para a sua história pessoal de auto realização.
Evidentemente, anotar os sonhos já é um bom começo, pois sem isso fica um pouco mais difícil trilhar o caminho do mito da individuação. Não seguia o caminho de ninguém quando fui fazer psicanálise, não sabia onde ia dar, mas tinha certeza absoluta do que me pediu para me postar ali. Ídem para a filosofia.
De todo modo, no meu caminho a espiritualidade, a filosofia e a psicologia são alicerces indispensáveis. Há muitas formas de se abordar a espiritualidade, outras tantas de trabalhar em psicologia, e centenas de autores para pesquisar em filosofia. Só isso já lhe daria infinitas sugestões de como ser análogo a meu caminho, sem contudo trilhar o meu caminho.
Boa sorte no seu, se eu puder de algum modo ajudar, será um prazer. Substituí-lo, provavelmente não me daria tanto prazer assim.
"Paga muito mal a um mestre aquele que permanece eternamente discípulo" (Carl Jung)
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Li no seu texto sobre EGO, na qual cita a frase do Ramakrishna, "Quem julga o ego é sempre um ego maior". Poderia elucidar esta citação? Se alguém é muito egocêntrico, e percebermos isso, então somos piores?
Perceber ou julgar? E qual a régua com a qual alguém se julga apto a medir o "ego" alheio, geralmente sem nem se atentar ao significado desta definição?
Quem pensa? O cerebro ou o espirito?
Aí precisaríamos conceituar o que você chama de "pensar". No sentido mais comumente aceito, é atributo da mente, utilizando o cérebro. Mas se você admite a existência de uma algo além do corpo físico, usualmente atribui-se a esta algum tipo de inteligência, memória, consciência. Não necessariamente um "pensamento", como concebido pela mente. Para alguns, somos o observador dentro da nave-corpo. Neste sentido, o "espírito" pensaria, usando o software mental e o hardware cerebral. Tudo depende do ponto de vista e paradigma.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Com que tipo de coisa você trabalhava antes de virar terapeuta? Como era o trabalho?
Fui Analista de Sistemas, DBA Oracle, Especialista em Redes, Suporte, Engenheiro de Software, Professor de Informática, sócio-proprietário de software-house e profissões afins entre 1982 e 2008. Tive boa carreira executiva no Grupo Santista Bunge & Born, e também atuei por anos respondendo por toda a informática de uma empresa do mercado financeiro, líder continental em seu segmento. Nos últimos 18 anos de modo concomitante às atividades e estudos na área de espiritualidade, Jung, psicologia e PNL. Dou palestras desde 1990, e tenho formação em PNL desde aproximadamente 1995. Fiz várias formações a seguir. Durante muitos anos, tive profissão dupla (ou tripla, se contar as constantes viagens pelo país como palestrante), atuando durante o dia em informática e atendendo todas as noites e sábados para formar clientela psicanalítica e adquirir experiência. Consegui fazer a mudança de área sem prejuízos financeiros ou técnicos, e me orgulho disso, embora tenha sido bastante cansativo. Crianças, não tentem fazer isso na sala de casa, a não ser sob supervisão direta de seus sonhos e de sua parte adulta. :-)
Vc acredita no demônio e em espíritos demoníacos ou será que todos são espíritos ainda ignorantes? Conheceu o Príncipe deste mundo?
Sua pergunta embute mais afirmações suas do que busca sincera de respostas. Que príncipe? Que espíritos? Perguntas do tipo OU parecem mais querer que o interlocutor autentique uma das duas opções que nós previamente escolhemos como as aceitáveis. Minhas dúvidas são multifacetadas. Se as suas se resumem apenas a duas opções, talvez esteja em melhores condições de respondê-las por si só, dentro de suas crenças - que, parece, não compartilho.
Estou com inveja de x por causa de y. Pronto, admiti. Estou livre do recalque e da projeção. E agora?
Estou todo atrapalhado na vida (tenho 34 anos). Não paro em um emprego por mais de um ano (há 10), não tenho muito tempo ou dinheiro e sou hiper-autocrítico comigo mesmo, sinto-me inferior e pressionado o tempo todo. Que terapia(s) poderia tentar?
Seu caso sugere, independentemente de quaisquer diagnósticos, uma dificuldade de relacionar-se consigo mesmo e com os demais. Inferioridade e superioridade só ocorrem a partir da comparação. O inferior se compara, e na verdade gostaria de ser maior. O narcisista, megalomaníaco e superior se compara também, e na verdade pensa ser menor, por isso cria a fantasia de grandeza. O Híper-autocrítico também se cobra porque exige um desempenho diferente dos demais. São todas psicodinâmicas oriundas da distorção da COMPARAÇÃO, que só ocorre quando há dois ou mais. Ou seja, os "relacionamentos" internos e externos estão distorcidos. Faz sentido para você?
Em um caso assim, qualquer linha séria com a qual se identificasse poderia ajudar. Até algumas não tão sérias poderia ajudar em casos assim. Algumas linhas são mais especializadas e eficientes em algumas camadas da psique, outras em certos casos, mas TODAS ELAS tem em comum aprofundar o relacionamento verdadeiro, no caso entre o analista e o partilhante. E relacionamentos sinceros, íntimos e constantes CURAM.
O partilhante / analisando / "paciente" não tem outro inconsciente para trazer para a sessão a não ser o dele mesmo. Por mais máscaras que tentasse apresentar ao terapeuta no plano da aparência / consciente, ao se aprofundar nas sessões estabeleceria também um RELACIONAMENTO, e nesse relacionamento inevitavelmente o seu inconsciente começaria a atuar, sem que ele percebesse.
EXEMPLOS: Alguém que não cumpre seus compromissos começará a faltar, ou a atrasar pagamentos, mesmo que não queria. Alguém que não valoriza os demais pedirá descontos que não precisa, ou tentará tirar vantagens no horário da sessão. Alguém mais refratário mostrará esse temperamento, mais cedo ou mais tarde, resistindo a análises óbvias. Alguém muito condescendente acabará concordando fácil demais com interpretações profundas e impactantes, às vezes como forma de não precisar praticar o que a análise sugere de mudança. Pessoas agressivas mostrarão isso, direta ou indiretamente, nos diálogos. E as que tentam levar a vida seduzindo, direta ou indiretamente, tentando ser agradáveis ou bonitas para se livrar das regras, acabarão fazendo isso também nas sessões - indireta ou diretamente. Dentre inúmeras outras possibilidades.
Os controladores e obsessivos são os mais óbvios de todos, já chegam nas clínicas psicanalíticas ou consultórios médicos querendo dizer o que tem que ser feito, tentando mudar as regras, descumprir, adiar, alterar frequências e pagamentos, discutir suas qualificações, explicar para o médico / terapeuta o que ele tem, fazer a interpretação / análise ANTES do profissional (vai que ele dizemos algo que ele não queira ouvir, né?). Os carentes tentam encerrar o tratamento a cada vez que você não dá minutos extra na sessão, ou quando não encontra horários de excessão, ou quando você desconstrói alguma de suas fantasias. O inconsciente está atuando o tempo todo na sessão, e se o analista está preparado para INTERPRETÁ-LO, as formações infantis acabam sendo modificadas, para melhor, refletindo também fora dali.
Psicanalistas e junguianos são reconhecidamente os mais treinados para identificar estas atuações transferenciais, mas mesmo que seu terapeuta não tenha técnica própria para manejo disso, a "terapia" precisará lidar com os efeitos disso. Se não há outro inconsciente para ser trazido à clínica senão o do próprio partilhante, o fato dele estar o expondo e trabalhando em sessôes contínuas e coerentes, onde suas regressões infantis não passam desapercebidas, faz com que este inconsciente se modifique e seja levado aos poucos para FORA do setting analítico. Se ele só pode trazer o inconsciente que tem, ele inevitavelmente leva da relação analítica um inconsciente contínua e progressivamente um pouco melhor.
Por fim, mas não menos importante, muitas vezes, a relação analítica é a PRIMEIRA relação verdadeiramente sincera e profunda que a pessoa tem na vida, em que realmente dedique horas olhos nos olhos para profunda compreensão e melhora de si mesmo a partir da interação a dois, e a primeira em que realmente esteja disposto a mudar. ISSO CURA. Isso coloca a pessoa em contato com o núcleo saudável de sua personalidade, que por si só já contém, nas profundezas da alma, os elementos da própria pessoa para a cura que ela mesma desejou ao nos procurar. Portanto, TODA psicoterapia séria, profunda e verdadeira funciona. Mesmo as mais superficiais e alientantes, que apenas focam em mudanças rápidas de comportamento e pensamento, sem aprofundar suas cauas. Se além de tudo isso for uma linha que consiga dar conta de seus transferências em sessão, tanto melhor.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Em qual religião começou sua iniciação espritual?Atualmente ainda segue alguma religião ou participa de alguma?
Sou católico de nascimento, batizado e crismado, toquei em muitas missas, fui membro de grupos de jovens - e, é claro, professor de catecismo.
Depois fui para a Igreja Batista, fascinado pela devoção com que se dedicavam ao Evangelho. Mas devido a outras "devoções" intensas, não fiquei lá por muito tempo.
Posteriormente, fenômenos paranormais que me incomodavam fizeram com que amigos me levassem para a umbanda, que na época me acolheu bastante. Mas como eu era mais mental e evangélico do que ritualista e simbólico, de lá fui rapidamente para o espiritismo "kardecista", o de "mesa branca", onde tive certa carreira meteórica como palestrante, dirigente, instrutor e coisas assim.
Mas como o CAMINHO não é o mesmo que um destino estático, acabei saindo para horizontes mais ecumênicos, universalistas e integrais, passando por Jung e integração de corpo, mente, alma e espírito.
Hoje me reencontro mais com a essência simbólica do catolicismo, muito além de todas as distorções históricas, dogmas, políticas e crendices populares atribuidas a ele. Descobri que meu "universalismo" rebelde, como o de muitos, aceitava TUDO de bom e de ruim, até mesmos religiões exóticas, sandices místicas e supostamente extraterrestres... EXCETO o meu próprio berço, não por acaso a religião de meus pais. Freud explica.
Que universalismo seria o meu se pudesse visitar a Ìndia, mas não Aparecida do Norte? Que valor ecumênico terei se souber sânscrito, chinês e interpretações literais do Baghavad Gitá e Tao Te King, mas APENAS para evitar perceber que a igreja de minha esquina TAMBÉM é casa de Deus e local sagrado de silêncio, oração e meditação, aberta a todos, e propiciando uma vida simbólica e ética para pessoas que não sabem escrever em línguas mortas distantes?
Aprendi muito no Seminário Paulopolitano, estudando Filosofia (da Religião) com os seminaristas. Aprendo muito e muito todos os dias no Arquidiocesano, tentando praticar a pedagogia amorosa de São Champagnat, e me encanto com o amor - sem demagogia - com que cada professor reconhece e leva a sério a sua missão EDUCADORA ali. E curso uma pós graduação em counseling (psicologia humanista, visando o sentido do ser) com padres, em uma instituição ligada à Psicologia da Universidade Gregoriana de Roma e à Escola de Formadores da Igreja Católica. Conheço padres e irmãos com enorme amor no coração, muitos missionários que levam vida de ascetismo em comunidades, muita gente amorosa que trabalha bastante em pastorais... E embora não tenha me tornado católico, nem abandonado tudo de bom que aprendi por esse caminho universalista, fico hoje me perguntando COMO nós espiritualistas ficamos tanto tempo tentando decifrar pérolas ou migalhas esotéricas em misticismos tão distantes (nada contra), mas não conseguimos olhar os PRÉDIOS enormes de amor e espiritualidade que estão erguidos bem ao lado de nós?
Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa. o que vc entendeu nisso?
Mas convenhamos, além do FATO, há metáforas psicanalíticas profundas nisso. Façamos uma leitura mais ANALÍTICA, sem julgarmos a "cor" da água real ou metafórica do cantor:
É uma obra que começa com "parece cocaina, mas é só tristeza", a melhor metáfora que já vi para a bipolaridade: Uma profunda tristeza gerando a máscara da mania e euforia. Ao pé da letra, podemos entender a depressão que vem da cocaina. Mas psicologicamente, ele diz muito mais. Diz que sua euforia não é a cocaina, mas a compensação de seu estado depressivo. Em outros termos, não é que a cocaina gere a euforia; ao contrário, a necessidade maníaca de compensar a depressão é que o leva à cocaina.
A música segue questionando os valores. Há tempos são os jovens que adoecem. Mas ele afirma seus valores, disciplina, compaixão, bondade. E demonstra ter dificuldade funcional em viver a partir deles. A letra é um requiém a uma vida focada em valores que ele não conseguiu administrar dentro de seu meio, afetividade, drogas, sucesso e condições. Não é coincidência ser, assumidamente, um namoro com o suicídio.
Nesse contexto, o que o levaria ao suicído "no poço" é, psicanaliticamente, a própria identificação com um poço interior. Note que não se trata de alguém tentando parecer bonzinho com uma sombra turva no interior. É justamente o contrário, alguém se desnudando em público, confessando suas fraquezas, pensando em desistir, porque não consegue administrar uas águas mais límpidas com a vida que traçou para si. Nesse sentido, a mensagem metafórica do poço é clara: Lá em casa (dentro dele), há um poço. Mas ele sabe que a água (emocional, valores) do poço é muito límpa. Por isso ele não se suicida. Não porque a água real ficará suja, mas porque ele, por mais que sofra, por mais que lhe acusem ou SE auto-acuse pela profundidade do poço de suas questões, o poeta tem ORGULHO de seus valores, da água límpida e profunda que pode lhe matar. Assim como não fazia sentido para o Renato Russo se jogar naquela cistena de água límpida do fundo do quintal, para não contaminá-la com a "sua sujeira", do mesmo modo ele desiste simbolicamente da idéia de se matar, já que ele tem orgulho de ser quem é, e inconscientemente percebe que não são seus valores que estão tão errados, mas sim a sua socialização. Daí a necessidade da euforia (cocaina) para encobrir a tristeza bipolar de existir.
Grande poeta. Grande exemplo de como a sombra psíquica pode, como dizia Jung, ser sublimada na expressão artística e poética. Registre-se que Renato Russo morreu de AIDS, uma doença que hoje não o mataria mais - e não de depressão. Ao contrário, a canalização poética da dor de sua depressão ajudou a dar oriente senso crítico para toda uma geração.
Lázaro Freire
Psicanalista Transpessoal
http://voadores.com.br/clinica